sexta-feira, 25 de abril de 2008

Resenha do livro A MORTE COMO SUSTENTO

Resenha do livro A morte como sustento
por Luciana Araújo (publicado no Ig-Educação)

Giselle Marques
140 páginas

Assim que li o título do livro-reportagem escrito pela jornalista Giselle Marques, "A morte como sustento", logo me veio à mente a imagem de um urubu que vi certa vez no Porto de Santos. Nunca tinha visto um daqueles de perto. Ele devorava a carne podre de um rato. Em seguida, voou bem alto. Lá em cima, o bicho me pareceu tão sublime quanto o céu, por viver alimentado daquilo que morreu, que é diferente de matar para comer, mas esta é outra história. O fato é que esta impressão me acompanhou por boa parte da obra.
Ao longo dos 10 capítulos de "A morte como sustento - O dia-a-dia dos profissionais que convivem com a dor alheia", vamos conhecendo as experiências de gente que ganha a vida ao lado daqueles que a perdem. Durante a narrativa, Giselle Marques não deixa de apresentar dados estatísticos - "O Brasil registra um milhão de óbitos por ano", mas opta pela singularidade: a morte de um jovem de 23 anos em um acidente de trânsito e os detalhes de seu último dia de vida.

Odajyl Pessoa, conhecido por amigos e familiares como Jyl, era um dos estudantes que no dia 20 de maio de 1994 estavam dentro de um ônibus que ia de Rio Claro a Piracicaba, no interior de São Paulo, quando bateu de frente com um caminhão-tanque que vinha Campinas e transportava piche. Dezenove pessoas morreram, 16 estudantes e três motoristas. Gestos e frases ditas por Jyl antes de deixar sua casa naquele dia, além dos pressentimentos dos mais próximos, marcam os relatos dos parentes e o início da linha cronológica presente no livro.
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A cobertura dos jornais sobre a tragédia, o resgate das vítimas, o atendimento nos hospitais, o velório no ginásio municipal de Rio Claro, a revolta da população e enfim a duplicação da SP-127, rodovia Fausto Santomauro, local do incidente, completam a trajetória e os desdobramentos do fato. A este caso específico vão se juntando outras histórias, que giram em torno do mesmo tema, a morte, mas sob perspectivas diversas, porque diversos são os personagens: médicos, enfermeiras, jornalistas, políticos, floristas, vigilantes de cemitério, agentes funerários, fabricantes de caixão, donos de funerárias, filhos, irmãos, mães. Gente que não só possui proximidades distintas com quem se foi, mas que crêem em coisas diferentes e de quebra enxergam a morte de ângulos muito particulares.

Os corpos são de todas os formatos e idades. E a própria morte, por sua vez, também chega de maneiras variadas. Às vezes tem cinco fases, como num caso de um doente terminal e em outras vem de uma hora para outra, como nos acidentes. Embora, para alguns entrevistados, ela sempre tenha o mesmo cheiro ou a mesma cor. Assim, relatos de dor e de saudade são entrecortados por outros que falam de conquistas e lucro. Por isso mesmo, há um grande esforço da autora em não cair no mesmo tipo de erro muitas vezes citado pelas pessoas com quem ela conversou: o de tratar o assunto com frieza. Por exemplo, o modo como dona Constância foi avisada da morte seu filho, Jyl; através de um alto falante do hospital. Enfim, um trabalho que não responde "O que você vai ser quando morrer?" (título de um dos capítulos), mas que traz informações relevantes sobre como os vivos agem diante desta que é nossa única certeza, seja do ponto de vista dos que sofrem com a perda, daqueles que lutam para salvar vidas, como daqueles que fazem desta despedida seu ganha pão ou um negócio extremamente rentável. Uma grande reportagem que tem como foco a morte, mas por ser justamente baseada em uma realidade concreta visitada pela autora, fala sobretudo de vida.

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